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A tropicália de Caetano e Gil

Uma concisa abordagem musical e histórica Por volta de 1967, dois brasileiros, Caetano Veloso e Gilberto Gil se propuseram à incorporar as conquistas da música popular brasileira da sua maneira, abdicando às formalidades e mostrando ao mundo como é possível fazer música de protesto sem renunciar à linha evolutiva. Inicia-se, portanto, o movimento conhecido como Tropicália que surgiu em defesa da música nacional contra a influência estrangeira, ou seja, tentava acabar com a idéia de que um país subdesenvolvido só pode produzir música subdesenvolvida. Era a favor da universalidade.
Seguindo a melhor das tradições dos grandes compositores da Bossa Nova e incorporando novas informações e referências de seu tempo, o Tropicalismo renovou radicalmente a letra de música. Letristas e poetas, Torquato Neto e Capinan compuseram com Gilberto Gil e Caetano Veloso trabalhos cuja complexidade e qualidade foram marcantes para diferentes gerações. Os diálogos com obras literárias como as de Oswald de Andrade ou dos poetas concretistas elevaram algumas composições tropicalistas ao status de poesia. Caetano e Gil foram considerados por alguns como poetas concretos.
Em fins de 1968, Gil e Caetano Veloso, cuja importância no Brasil era, e é, de certa forma comparável à de John Lennon e Paul McCartney no mundo anglófono, foram presos pelo regime militar brasileiro instaurado após 1964 devido a supostas atividades subversivas, de que foram taxados. Depois da anistia, ambos exilaram-se por ocasião do governo militar em vigência no Brasil a partir de 1969 em Londres.
Nos anos 1970, Gil iniciou uma turnê pelos Estados Unidos e gravou um álbum em inglês. De volta ao Brasil, em 1975 Gil grava Refazenda, um dos mais importantes trabalhos que, ao lado de Refavela, gravado após uma viagem ao continente africano, e Realce, formariam uma trilogia RE. Refavela traria a canção Sandra, onde, de forma metafórica, Gil falaria sobre a experiência de ter sido preso por porte de drogas durante um excursão ao sul do país e ter sido condenado à permanência em manicômio judiciário, ou conforme denominação eufemística, casa de custódia e tratamento, entretanto designada por Gil como hospício.
O repertório do primeiro LP individual de Caetano Veloso, intitulado Pau Brasil ( homenagem à Oswald de Andrade), trouxe canções como Alegria alegria, No dia em que vim-me embora, a antológica Tropicália, Soy loco por ti América e Superbacana, e também lançada em compacto simples, ao som de guitarras elétricas do grupo argentino Beat Boys, enlouqueceu o terceiro Festival de Música Popular Brasileira (TV Record, outubro de 1967), juntamente com Gilberto Gil, que interpretou Domingo no Parque, classificadas respectivamente em quarto e segundo lugar. Era o início do Tropicalismo, movimento este que representou uma grande efervescência na MPB.
As músicas Alegria Alegria de Caetano Veloso e Domingo no Parque de Gilberto Gil são a tomada da consciência, sem máscara e sem medo, da realidade jovem.
Alegria Alegria, gravada no álbum intitulado Pau Brasil ( homenagem à Oswald de Andrade) foi como o Desafinado para a Bossa Nova, um desabafo, manifesto ante a crise de insegurança que tomou conta da música popular brasileira e ameaçou interromper a sua marcha evolutiva. A letra referia-se a um imprevisto da realidade urbana, uma linguagem nova, o modernismo e o desenvolvimento: “crimes, espacionaves, guerrilhas.... em cardinales...” O trecho da letra “Por que não?” simbolizava um desabafo, um desafio. A canção representava o presente, o dia-a-dia da comunicação moderna e urbana do Brasil. Trazia frases longuíssimas que pareciam romper a quadratura estrófica seguida de versos curtos. Era um confronto entre o sério e o derrisivo.
Alegria, Alegria Caminhando contra o vento Sem lenço e sem documento No sol de quase dezembro Eu vou...
O sol se reparte em crimes Espaçonaves, guerrilhas Em cardinales bonitas Eu vou...
Em caras de presidentes Em grandes beijos de amor Em dentes, pernas, bandeiras Bomba e Brigitte Bardot...
O sol nas bancas de revista Me enche de alegria e preguiça Quem lê tanta notícia Eu vou...
Por entre fotos e nomes Os olhos cheios de cores O peito cheio de amores vãos Eu vou Por que não, por que não...
Ela pensa em casamento E eu nunca mais fui à escola Sem lenço e sem documento, Eu vou...
Eu tomo uma coca-cola Ela pensa em casamento E uma canção me consola Eu vou...
Por entre fotos e nomes Sem livros e sem fuzil Sem fome, sem telefone No coração do Brasil...
Ela nem sabe até pensei Em cantar na televisão O sol é tão bonito Eu vou...
Sem lenço, sem documento Nada no bolso ou nas mãos Eu quero seguir vivendo, amor Eu vou...
Por que não, por que não... Por que não, por que não... Por que não, por que não... Por que não, por que não... Domingo no Parque misturava instrumentos acústicos e elétricos em seu arranjo, como berimbaus e guitarras, trazendo assim, uma complexibilidade musical. A letra trazia um jogo de palavras com sons e idéias.
Domingo no Parque O rei da brincadeira Ê, José! O rei da confusão Ê, João! Um trabalhava na feira Ê, José! Outro na construção Ê, João!...
A semana passada No fim da semana João resolveu não brigar No domingo de tarde Saiu apressado E não foi prá Ribeira jogar Capoeira! Não foi prá lá Pra Ribeira, foi namorar...
O José como sempre No fim da semana Guardou a barraca e sumiu Foi fazer no domingo Um passeio no parque Lá perto da Boca do Rio...
Foi no parque Que ele avistou Juliana Foi que ele viu Foi que ele viu Juliana na roda com João Uma rosa e um sorvete na mão Juliana seu sonho, uma ilusão Juliana e o amigo João...
O espinho da rosa feriu Zé (Feriu Zé!) (Feriu Zé!) E o sorvete gelou seu coração O sorvete e a rosa Ô, José! A rosa e o sorvete Ô, José! Foi dançando no peito Ô, José! Do José brincalhão Ô, José!...
O sorvete e a rosa Ô, José! A rosa e o sorvete Ô, José! Oi girando na mente Ô, José! Do José brincalhão Ô, José!...
Juliana girando Oi girando! Oi, na roda gigante Oi, girando! Oi, na roda gigante Oi, girando! O amigo João (João)...
O sorvete é morango É vermelho! Oi, girando e a rosa É vermelha! Oi girando, girando É vermelha! Oi, girando, girando...
Olha a faca! (Olha a faca!) Olha o sangue na mão Ê, José! Juliana no chão Ê, José! Outro corpo caído Ê, José! Seu amigo João Ê, José!...
Amanhã não tem feira Ê, José! Não tem mais construção Ê, João! Não tem mais brincadeira Ê, José! Não tem mais confusão Ê, João!...
Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh! Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh! Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh! Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh! Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh!... Chico Buarque, que compunha músicas como A Banda que tratava do passado nas bandinhas de coretos da infância, resgatado por Caetano, foi um mestre, evoluiu no sentido da inventividade e criou canções com uma roupagem nova como Carolina e Cotidiano.
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