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Música & Psicomotricidade

Alicerces para qualquer tipo de aprendizagem

Dizia Camões: “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança. Todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades...”.
As mudanças nem sempre são positivas. Nem sempre são negativas. Toda mudança envolve ambos os aspectos. Como educadores devemos aproveitar os aspectos positivos e criar estratégias para sanar os negativos, diminuindo, sempre que possível, seus efeitos no processo educativo.

Nos últimos anos, o desenvolvimento cognitivo de nossas crianças é mais acelerado. Elas estão expostas a um grande número de estímulos e isso é muito bom. Porém, suas vivências corporais estão empobrecidas, logo, o desenvolvimento psicomotor não está no mesmo nível que o cognitivo. O que acontece? Crianças que têm uma inteligência enorme, porém, não conseguem expressá-la: “o corpo não acompanha o ritmo do pensamento”. Elas têm as ferramentas, mas não conseguem usá-las. Resultado? Problemas grafomotores e de limites. As crianças não conhecem seu próprio corpo do ponto de vista da funcionalidade, logo, não sabem utilizar partes separadas. Ao escrever, por exemplo, utilizam pressão e tensão em todo o corpo e na realidade, o corpo deveria estar em repouso concentrando energia para o movimento principal (escrever). Alguma coisa sempre vai falhar, devido ao gasto desnecessário de energia: a ortografia, o conceito ou a letra. Cada criança prioriza um aspecto. Geralmente a maioria deixa a letra como última opção. Muito bem! Esclarecido! Mas, o que podemos fazer?

Criar alternativas, preferencialmente lúdicas, para “ensiná-las” a usar o corpo, primeiro de forma global (o corpo todo) e depois de forma específica (partes segmentadas), ou seja, respeitando as leis neuropsicomotoras de desenvolvimento: do grande para pequeno, do todo para as partes, de cima para baixo, de dentro para fora, etc. O uso do corpo e de suas partes deve ser consciente e voluntário: as crianças devem saber os objetivos dos jogos, que parte do corpo pode e deve ser utilizada, como cada uma se move, etc.

O planejamento das atividades deve ser muito bem elaborado, com dificuldade gradativa e sempre de forma lúdica e divertida (o que é muito fácil quando estamos falando da Aula de Música, certo?).
Fica mais fácil entender com um exemplo:
Um jogo global: por exemplo, com a canção “Caranguejo não é peixe”: algumas crianças são as ondas e outras são os caranguejos. Os que são onda estão com um tecido (devem dividi-lo, o que já promove uma adaptação corporal e limite). Os caranguejos estão agachados no chão e devem “fugir” das ondas. Trocam-se os papéis.

A Flauta (específico): depois de utilizarem o corpo todo para brincar, termino a aula com a flauta. Utilizo a de madeira porque é um estímulo sensorial riquíssimo e um dos poucos contatos que as crianças têm com esse material (raros são os brinquedos feitos de madeira) e do que são feitos os lápis? A flauta de madeira pedagógica cumpre também um papel importante porque “imita” a preensão que a criança utilizará ao segurar o lápis (o dedo polegar e indicador não se mexem, são utilizados para realizar a preensão, exatamente como ocorre com o lápis).

O processo é compartilhado (aprendizagem significativa). As crianças sabem que o objetivo da flauta não é torná-los músicos (o que, no final acaba acontecendo)... Que ela cumpre objetivos bem definidos e claros, entre outras coisas, “melhorar” a letra cursiva.
Além disso, com a flauta, as crianças aprendem a respirar pelo nariz (aspecto fundamental no processo de atenção, básico para qualquer tipo de aprendizagem). Sem falar nas questões sociais envolvidas: uma nota não cria uma canção! Cada um é importante. Tocamos juntos. Ninguém é mais importante! Todos são iguais!
Não é uma fórmula mágica. É uma forma diferente de organizar e sistematizar os conteúdos. Pegue sua programação e aplique a regra de seguir as leis da evolução neuropsicomotora. Tem dado certo pra mim nos últimos anos. Com certeza pra você também vai dar.

Roseli Lepique
Psicomotricista. Professora de Música.
Contato para cursos: roselilepique@uol.com.br
Apoio: Am2 Flautas

 

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