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Patrícia Bretas

A carioca que ganhou o mundo
Pianista já apresentou-se em mais de dez países e é considerada a ‘embaixatriz da música erudita brasileira’


A pianista carioca Patrícia Bretas é considerada pela crítica européia como a embaixatriz da música erudita brasileira. No ano de 2003, ganhou da crítica brasileira o reconhecimento pelo número de apresentações realizadas. Em sua carreira internacional, registra 90 concertos em mais de dez países. Para o próximo ano de 2009, ela já tem programadas várias apresentações com o tcheco Jaroslav Sonsky. Confira a entrevista exclusiva à Folha Sinfônica.

FS - Como iniciou na música e por que escolheu o piano?
Patrícia - Acho que “me encontrei” com a música quando era ainda apenas um feto, pois minha mãe – e toda minha família - cultivavam-na com emoção. O que ouvíamos eram discos de Philipe Entremont, gravações raras de Samson François, e muitas, muitas óperas. Meu pai era advogado, mas era tenor amador, e cantava as arias famosas com minha irmã ao piano. Minha mãe (contralto) foi solista do Te Deum de Bruckner e do Messias de Händel.
Outro ambiente fundamental no início da vida musical foi a Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro, onde fui criada. Lá aprendi a cantar em coros graduados (coro infantil, de adolescentes, de jovens, de adultos), a gostar de órgão, de Cantatas e Oratórios.
O piano me chegou naturalmente, pois minhas irmãs mais velhas já o estudavam e eu sempre ficava ansiando por meus momentos a sós com ele, quando ficava dedilhando algumas canções populares a até peças eruditas mais simples, mesmo antes de ter as primeiras lições. Eu achava que o piano era um fascinante companheiro, além de divertido. É um instrumento grandioso, que dispensa motivos para elogiar. Ele “se basta”.
Aos sete anos entrei para a Escola de Música da UFRJ, onde fiz iniciação musical e curso técnico, mas veio a adolescência e passei a dedicar-me mais aos estudos bioquímicos, matemáticos e lingüísticos... O piano ficara só mesmo como passatempo...
Somente comecei um estudo sistemático aos 17 anos, quando de repente tive uma certeza interna inquestionável de que eu deveria seguir a carreira pianística, sem que nunca a tivesse iniciado, nem com horas de estudo, nem recitais, nem concursos. Até então eu apenas tocava nos cultos. Mas passei para a UFRJ aos 18 anos, e logo vieram os primeiros louros, conseqüência de uma imersão no mundo do piano, dos clássicos, dos melhores livros e discos, dos melhores professores, dos melhores concertos a assistir, das infindáveis horas ao piano, no mundo da descoberta do que resultaria melhor interpretativamente aqui, e ali, neste e naquele trecho, enfim: mergulhei no mundo da busca de um fraseado ideal, que mais lindamente comunicasse a mensagem musical... E acho que fiz o que era certo para mim, porque senti que obedecia à voz divina.
Minha carreira, portanto, começou bem tarde, mas o berço musical e a garra que tive para estudar me ajudaram a conquistar alguma coisa, e posso dizer que estou bem feliz.

FS - Como vê o desenvolvimento do piano no Brasil como instrumento? Acha que ainda é elitizado?
Patrícia - O piano é um instrumento ainda bastante elitizado no Brasil. Seu acesso não é fácil, é um instrumento caro, não portátil, não se encontra nas escolas (com raras exceções), tem manutenção cara e exige anos a fio para que se aprenda a tocá-lo bem. Não acho o mais importante “popularizar” o piano, mas sim divulgar de forma intensa a música clássica em geral. Ela tinha que estar nas escolas, nas lojas, nas rádios, na TV, e em horários nobres. Isso porque para se compreender música clássica há que se ouvir. E para se ouvir há que se comparecer, mas o público precisa de propaganda maciça para comparecer. Esta música tem que deixar de parecer longínqua, estranha, para tornar-se íntima.
O Governo Federal bem que tem feito esforços para termos uma melhoria nesta área, através da Lei de Incentivo à Cultura, mas a grande verdade é que se a mídia não ajudar, a parte da população menos favorecida financeiramente ficará eternamente à margem do que acontece nas salas de concerto e nos conservatórios do país. Este nicho será sempre mais freqüentado pelas classes A e B e por algumas exceções das classes mais pobres, pessoas talentosas que, com seu esforço pessoal e de seus parentes, chegam a ter acesso e se desenvolvem no meio musical.
Enquanto isso, em todos os países desenvolvidos entende-se que o aprendizado da música é essencial à formação do ser humano, e deve ser acessível a todos.

FS - Como é a recepção da música brasileira no exterior?
Patrícia - Nos últimos seis anos realizei oito turnês pela Europa. O que tenho vivenciado é que nossa música é extremamente bem recebida por lá. Ela desperta curiosidade, atrai platéias, levanta aplausos calorosos e recebe crítica especializada.
Em Praga, por exemplo, os compositores contemporâneos sempre comparecem aos recitais do duo que faço com o Sonsky, principalmente a fim de conhecerem e analisarem seus “colegas” brasileiros. E o fazem de maneira criteriosa, procurando entender a obra e fazer perguntas para tirarem suas dúvidas.
O europeu em geral tem um forte imaginário em torno do Brasil, e se remete ao nosso clima tropical, às praias com suas belas mulheres, ao samba, carnaval e futebol, sempre que lê o nome “Brasil” nos jornais. Tudo isso vem em mente na hora da escolha de ir assistir a um concerto com uma pianista brasileira, que tocará (entre outras músicas), música brasileira de concerto. Eu noto claramente que é, para eles, muito instigante nos assistir, e fico muito contente em passar-lhes uma outra imagem do Brasil, a de que aqui também temos disciplina, cultura, educação, ciência do fazer artístico.
Talvez sejam estas as razões pelas quais é bem mais fácil eu aparecer dando entrevistas a uma revista especializada, ou a jornais de lá do que daqui! Com a publicação de críticas posso afirmar o mesmo, infelizmente.

FS - Como andam suas atividades acadêmicas? Ainda leciona na UFRJ?
Patrícia - Sou professora assistente da Escola de Música da UFRJ desde 1997, aprovada por um rigoroso Concurso Público. O requisito mínimo para esta categoria de professor é o Mestrado, que cursei na própria UFRJ, e o fiz bem após meu Bacharelado em Piano (UFRJ) e Pós-Graduação em Paris (UMIP). Lá dou aulas individuais de Piano para alunos do Curso de Bacharelado em Piano, e Piano B para alunos de Regência e Canto.
Entre 1999 e 2003 acumulei o cargo de Diretora-Adjunta de Extensão na gestão do compositor João Guilherme Ripper (atual Diretor da Sala Cecília Meireles). Neste período realizei grandes reformas nos cursos em andamento, para seguir a Lei de Diretrizes e Bases de 1996 do MEC. Foi um enorme esforço, mas consegui, junto com uma boa equipe de trabalho, fomentar e criar cursos que chegaram a trazer 400 alunos novos por ano à Escola de Música, movimentando os professores, demandando monitores, professores convidados, produzindo musicais infantis ao final de cada ano, atraindo públicos novos, e inserindo nossa escola (a mais antiga do Brasil, fundada em 1948) num roteiro cultural até então impensável: o do choro. Foi o curso “O choro na Escola”, que fez o maior sucesso, trazendo até Hermínio Bello de Carvalho e Zezé Gonzaga para prestigiar as aulas!
Foi um tempo intenso, pois minhas atividades como professora de piano não cessaram, e meus concertos solo, com orquestra, com o duo pianístico e com o duo internacional continuaram a pleno vapor!
Um doutorado está em meus planos, mas preciso ainda esperar um pouco mais, para dar conta de todos os compromissos de concertos assumidos em contrato. Não deve tardar muito, pois é um curso importantíssimo para quem está num ambiente acadêmico efetivo.

FS - Como iniciou sua parceria com Jaroslav Sonsky?
Patrícia - Tocamos juntos pela primeira vez em 2001 na Sala Guiomar Novaes, a convite do compositor e então diretor da Sala Cecília Meireles Ronaldo Miranda. Era para ser apenas um concerto pontual, mas no dia seguinte o violinista marcou um almoço para me fazer a proposta de formarmos um duo internacional permanente, algo dificílimo de manter, mas eu adorei a idéia! Talvez sejamos o único duo nestas condições, com turnês a cada ano em importantes salas de concerto na Europa, e de dois em dois anos no Brasil.
Temos mantido o objetivo de difundir a música brasileira na Europa, e de fazer o mesmo com a música tcheca aqui. Com isso, nosso repertório, além do tradicional (Vivaldi, Mozart, Beethoven, Schubert, Mendelssohn, Paganini, Brahms, Franck, Fauré, Chausson, Debussy, Ravel, etc) também obrigatoriamente inclui brasileiros como Leopoldo Miguez ,Villa-Lobos, Ronaldo Miranda, João Guilherme Ripper, Murillo Santos, Edino Krieger, etc, e tchecos como Dvorák, Smetana, Martinu, Oldrich Korte, Otomar Kvech, Lubos Sluka, dentre outros compositores – vivos e mortos, todos relevantes em nossos respectivos países.
Serão três viagens à Europa em 2009, mas quero, através de minha empresária Lilian Bosboom, incrementar muito mais nossa agenda no Brasil, onde sempre tocamos bem menos. As chances por aqui são em menor número e com cachês menos interessantes, também, mas o Brasil continua a ser nosso objetivo-mor, pois foi aqui que nasceu essa parceria, e é aqui que o público mais carece de conhecer a boa música, a música brasileira de concerto, a música clássica em geral.
Mas temos caminhado neste sentido, entrando em contacto com os realizadores e produtores de música clássica em nosso país, utilizando as ferramentas da comunicação atuais na divulgação do nosso trabalho: Power Points, DVDs, um site bem elaborado www.patriciabretas.mus.br, newsletters mensais, além do próprio YOUTUBE. São os recursos de mídia de que todo profissional qualificado se utiliza hoje em dia, e com os músicos não pode ser diferente.

Agenda Novembro 2008
13 de novembro - Recital solo na Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro, reinaugurando o Piano Petrof, recentemente restaurado.
15 de novembro - Recital solo na Casa de Artes Paquetá, Rio de Janeiro
28 de novembro - Apresentação ao vivo na Rádio MEC, no programa “Sala de Concerto”, em homenagem ao compositor Alceo Bocchinno, tocando obras para Cello e Piano e Canto e Piano.

Ano de 2009
24 Março – Prague Music Museum - duo Bretas-Sonsky
25 Março - Prague Smetana Museum - duo Bretas-Sonsky
26 Março – Sv. Vavrince Kostel - uma igreja do séc. XI - duo Bretas-Sonsky
28 Março – Festival Internacional de Budapest, um dos mais importantes do mundo - duo Bretas-Sonsky
27 Setembro – Rakovnik Harold Hall in Rabas Gallery - duo Bretas-Sonsky
29 Setembro – Frankenthal – Alemanha - duo Bretas-Sonsky
04 Outubro – Prague Knight Hall in Waldstein Palác – duo Bretas-Kevorkian
06 Outubro - Trutnov Martinu Hall, at Martinu Festival – duo Bretas-Kevorkian
Novembro 2009 - Solista da Norrköping Symphony Orchestra, apresentando o Concerto nº 5 para Piano e Orquestra de Martinu.

 

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