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Instrumentos, a ferramenta ideal para os jovens

A música como arte na vida de muitos jovens pode mudar o estilo de vida e o instrumento musical é a base para essa mudança
Sabemos que a música além da arte, manifesta o sentimento de cada um mediante um som ou um estilo musical. Tornou-se nos últimos tempos uma ferramenta muito utilizada para resgatar jovens marginalizados e sem oportunidades, garantindo a eles uma maneira artística de encarar a vida. Conhecendo este lado de inclusão social, acreditamos que algumas empresas fabricantes de instrumentos musicais, (principalmente aquelas que fabricam instrumentos associados à cultura do país) sentem-se responsáveis também pelo resgate destes jovens, colaborando para a integração deles na sociedade. Exemplo disso é o Sr. Nelson Quirino, proprietário da fábrica Quirino Instrumentos Musicais Percussivos, que além de fazer doações e vender a preço de custo seus instrumentos para instituições que cuidam de jovens carentes, entende o que o mundo dos jovens relacionados com a música precisa para ter uma conduta mais digna perante a sociedade.
Confira a entrevista com Sr. Nelson
Folha Sinfônica: Sendo um destes fabricantes de instrumentos musicais de percussão, vendo a marginalidade e muitos jovens ainda abandonados pelo país a fora e dando sua colaboração para o mercado, como o senhor imagina que pudesse ser a proximidade e a acessibilidade destes jovens para o contato com os instrumentos musicais?
Nelson Quirino: Eu tenho esta preocupação, procuro fazer o meu melhor nas minhas possibilidades, mas também é fato que depende também de outros setores. Por exemplo, já fizemos muitas doações e vendas a preço de custo para escolas e entidades que cuidam dos jovens, porém o problema é mais profundo do que se imagina. Primeiro: Se você é um educador, que objetivo na vida do jovem está incentivando? O jovem marginalizado tem pai, tem mãe? Por que se eu ajudo de uma forma, os pais colaboram com o incentivo que lhes é dado? Se não tem pai e nem mãe, existem educadores suficientes e qualificados que também poderão fazer o papel de pai e mãe? Portanto, se os jovens não aprenderem amar e respeitar seu semelhante desde pequeno, ter disciplina, isso vai refletir no seu aprendizado, e assim vai procurar músicas que se identificam com eles, que são músicas que enaltecem a revolta, a rebeldia, isso é um “problemão”. Na música, eu como fabricante só forneço a ferramenta de trabalho, que é o instrumento musical. O instrumento musical é como uma faca, ela serve para cortar pão e legumes ou serve para ferir alguém. Tudo depende de quem ensina o que fazer com ela. Infelizmente a música tem sido usada para os dois lados, de um lado motiva, emociona, traz alegria, descontrai. Antes de tudo, devemos responder perguntas tais como: Como educador, estou passando o conceito de música aos alunos, cativo eles mostrando o que é bom é o que é prejudicial? Eles terão a capacidade de diferenciar isso? Tenho esta percepção ou arte de ensino? E você que quer aprender a tocar um instrumento, faz isso com que objetivo? Trabalho, hobby, apenas descontração, interação? Sabemos que tocar um instrumento envolve dedicação, mesmo sendo um instrumento de percussão que é simples deve-se ter uma boa atenção, coordenação motora e muita dedicação, se não tem isso, tem que aprender. Mas quem vai te ensinar? Espero que este incentivo do governo à música envolva principalmente a capacitação de professores que estão à altura de ajudar tais jovens. Esse assunto daria um livro, mas podemos resumir em uma sentença: Se esse incentivo de tirar os jovens da marginalidade fosse uma pescaria, a Quirino dá a vara, alguém tem que ensinar a pescar.
FS - Qual a relação que o senhor faria entre instrumentos de percussão e sua aplicação, e os instrumentos de orquestra e sua aplicação?
NQ - A relação seria como um alimento: Os instrumentos de percussão é o arroz, feijão com um bom bife e salada, aquela comidinha gostosa de cada dia. Já os instrumentos de orquestra, são pratos mais requintados que infelizmente poucos têm acesso.
FS - Como o senhor descreveria a diferença de cultura entre os jovens que partem para o clássico e os jovens que partem para o pop e o rock?
NQ - No geral existe diferença, mas cada caso é um caso. Os jovens que se dedicam à música clássica têm que gostar de estudar, este incentivo vem desde pequeno, quando a criança e o jovem são incentivados aos estudos. Já os que partem para o pop e o rock, a família já são menores e muitas vezes os acordes repetitivos ficam mais fáceis de gravar, e a princípio não se exige muita dedicação como na música clássica. (Cautela: Existem jovens que se dedicam bastante estudando o pop e o rock, e isto é elogiável, continuem assim). Todos os instrumentos têm sua peculiaridade e se bem tocados são todos maravilhosos de ouvir. Outra questão importante é o acesso ao instrumento musical: Quanto custa um instrumento de percussão x aula em comparação com os instrumentos clássicos e suas aulas? Agora eu, com meus 44 anos, vejo outra diferença gritante: A música clássica tem um padrão definido e tem poucas mudanças e pode-se dizer que é um padrão único. Já o pop e o rock durante os anos houve suas mudanças conforme as mudanças de comportamento da sociedade.
FS - Como fabricante de instrumentos percussivos, o senhor vê ainda a possibilidade de se desenvolver novos instrumentos musicais para aplicação nos conjuntos?
NQ - Observando no ponto de vista construtivo do instrumento, um surdo, por exemplo, tem seus limites de diâmetro e comprimento, se passar disso, vira outro instrumento. Na percussão, existe campo para desenvolvimento de materiais e até mesmo acabamento, mas um surdo será sempre um surdo na questão de dimensões. E quando se fala de vendas devemos seguir as tendências da época. Quando um grupo de maestro sugere para as bandas escolares material de inox, fabricamos inox. Quando sugere madeira, fabricamos com madeira. Na verdade dançamos conforme a música. Não somos nós fabricantes que determinamos que instrumentos sejam utilizados em determinado período ou ano.
FS - Sobre linha infantil, o que o senhor tem a dizer sobre a necessidade de desenvolvimento?
NQ - Nesse seguimento o padrão de variedade de instrumentos não difere muito. O objetivo principal de todo pedagogo é apresentar para as crianças as diferenças dos sons. O som metálico de um reco-reco e um triângulo, a diferença no som de instrumentos fabricados com madeira, a diferença no som dos surdos e assim por diante. É como ensinar o ABC só que relacionado à música.
FS - Como está o mercado interno nesse segmento de instrumentos percussivos?
NQ - Está bom, não está ótimo, mas com tendências a melhorar. Está bom quando você paga todas as dívidas e impostos e ainda lhe sobra 10% do faturamento. É ótimo, quando você paga todas as dívidas e impostos e ainda lhe sobra 20% do faturamento.
FS - Como está o mercado externo, tanto para exportação quanto para importação?
NQ - O nosso forte é o mercado interno, pois existem concorrentes que fizeram um ótimo trabalho para exportações e alto padrão de qualidade e tem dado certo. Não temos ambições de partilhar este seguimento. Fazemos exportações, porém, bem módicas.
FS - A Quirino tem novos projetos para o ano que vem?
NQ - Sim, temos, porém ainda sem divulgação.
Por Natália Schener
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